terça-feira, 25 de maio de 2010

Quando o fim não surpreende

Silvia acaba de completar 30 anos de carreira. E, pela primeira vez, se vê numa encruzilhada entre seu maior prazer, o cinema, e sua profissão: psicanalista.
Isso porque, chega ao seu divã um novo paciente. Jorge, um cinéfilo neurótico. Jorge sofre um conflito sob o qual não tem controle. Assiste aos novos filmes em cartaz e se assusta com seus enredos e principalmente com os finais. Semanalmente traz pra análise cada detalhe do último que assistiu, enfatizando as tramas e as interpretações. É um tal de moço morre pra cá, mulher traida, acidente acontece pra lá, que a psicanalista não vê mais saída a não ser abdicar de seu hobby e procurar uma nova fonte de prazer...

Uma nova fonte de prazer que a livrasse das ameaças cotidianas. Talvez construir uma casa no alto de uma ladeira, lá em cima, aplainaria o terreno formando um grande quadrado gramado. Ficaria a maior parte do tempo só, com o Tião. Um cachorro de estimação, Labrador, de pelo dourado, cujo maior prazer é sair correndo para pegar os galhos, bolas, frutos (pêssegos verdes) que ela atira. Às vezes ele se perde, melhor dizendo, ele perde o graveto. Para, anda em volta, cheirando o ar, a grama, as redondezas, estreitando os espaços em círculos concêntricos até que finalmente o reencontra. Traz correndo e o deposita aos pés dela. As pessoas que ela tentou levar para lá, invariavelmente, invadem-na. Com opiniões, julgamentos, experiências. Todas sem que ela as peça. Acaba se aborrecendo. E sendo profissional, deveriam respeitar as suas opiniões. Aprender a ficar quietos diante da mansidão do lugar. Aprender a ver a paisagem e escutar a música das folhas. Falar quebra a harmonia. Sim, talvez uma casa no topo do morro, seria uma alternativa.

Outra alternativa, diferente de fugir, seria enfrentar o problema. Em vez do silêncio, poderia refletir sobre esse cansaço. Será um mero cansaço físico ou haverá um outro singificado simbólico subjacente a ele? Será que esse aparente enjôo das repetições de seus pacientes não terá por trás uma recusa em encarar sua responsabilidade? De fato, é possível que não esteja mais conseguindo interferir positivamente na vida de seus pacientes. Já faz tempo que não se faz ouvir. Não tem conseguindo desempenhar a contento seu papel profissional.

Uma idéia lhe ocorre. As narrativas das vidas de seus pacientes sempre se repetem, isso é verdade. Mesmo quando novos personagens entram em cena, é para desempenharem os papéis que eram dos seus antecessores. Não será que a falta de resultados que vem obtendo tem a ver com sua técnica de não interferência?

Por que assumir sempre uma postura tão passiva? Por que não investir ativamente em seus clientes? Por que não apressar os processos? E sobretudo, por que, para tudo isso, não usar o poder de imagens e enredos trazidos por ela própria? E assim resolve testar o poder que as passagens dos filmes exercem sobre Jorge em outros pacientes.

Essas, as duas alternativas. Prazer do silêncio ou reflexão com ação. Resta decidir.

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