Silvia acaba de completar 30 anos de carreira. E, pela primeira vez, se vê numa encruzilhada entre seu maior prazer, o cinema, e sua profissão: psicanalista.
Isso porque, chega ao seu divã um novo paciente. Jorge, um cinéfilo neurótico. Jorge sofre um conflito sob o qual não tem controle. Assiste aos novos filmes em cartaz e se assusta com seus enredos e principalmente com os finais. Semanalmente traz pra análise detalhes do último que assistiu, enfatizando as tramas e as interpretações. É um tal de moço morre pra cá, mulher traida, acidente acontece pra lá, que a psicanalista não vê mais saída a não ser abdicar de seu hobby e procurar uma nova fonte de prazer.
Uma nova fonte de prazer que a livrasse das ameaças cotidianas. Talvez construir uma casa no alto de uma ladeira, lá em cima, aplainaria o terreno formando um grande quadrado gramado. Ficaria a maior parte do tempo só, com o Tião. Um cachorro de estimação, Labrador, de pelo dourado, cujo maior prazer é sair correndo para pegar os galhos, bolas, frutos (pêssegos verdes) que ela atira. Às vezes ele se perde, melhor dizendo, ele perde o graveto. Para, anda em volta, cheirando o ar, a grama, as redondezas, estreitando os espaços em círculos concêntricos até que finalmente o reencontra. Traz correndo e o deposita aos pés dela. As pessoas que ela tentou levar para lá, invariavelmente, invadem-na. Com opiniões, julgamentos, experiências. Todas sem que ela as peça. Acaba se aborrecendo. E sendo profissional, deveriam respeitar as suas opiniões. Aprender a ficar quietos diante da mansidão do lugar. Aprender a ver a paisagem e escutar a música das folhas. Falar quebra a harmonia. Sim, talvez uma casa no topo do morro, seria uma alternativa.
Outra alternativa, diferente de fugir, seria enfrentar o problema. Em vez do silêncio, poderia refletir sobre esse cansaço. Será um mero cansaço físico ou haverá um outro singificado simbólico subjacente a ele? Será que esse aparente enjôo das repetições de seus pacientes não terá por trás uma recusa em encarar sua responsabilidade? De fato, é possível que não esteja mais conseguindo interferir positivamente na vida de seus pacientes. Já faz tempo que não se faz ouvir. Não tem conseguindo desempenhar a contento seu papel profissional.
Uma idéia lhe ocorre. As narrativas das vidas de seus pacientes sempre se repetem, isso é verdade. Mesmo quando novos personagens entram em cena, é para desempenharem os papéis que eram dos seus antecessores. Não será que a falta de resultados que vem obtendo tem a ver com sua técnica de não interferência?
Por que assumir sempre uma postura tão passiva? Por que não investir ativamente em seus clientes? Por que não apressar os processos? E sobretudo, por que, para tudo isso, não usar o poder de imagens e enredos trazidos por ela própria? E assim resolve testar o poder que as passagens dos filmes exercem sobre Jorge em outros pacientes.
Essas, as duas alternativas. Prazer do silêncio ou reflexão com ação. Resta decidir.
Silvia percebe-se angustiada em seu momento de decisão. Nunca tinha notado o quanto tinha dificuldade em trilhar caminhos. Entra em crise, cai no vazio. Finalmente compreendeu o que seus pacientes sentiam quando não sabiam como escolher.
Ansiosa faz verdadeiros ataques na geladeira, depois à dispensas, começa a comer tudo o que encontra pela frente. Dedica-se de corpo e alma à comilança. Começa a fazer receitas criativas, caloricas e super baratas. Pois, a esta altura, já não tinha mais pacientes, e nem honorários.
Depois de dias comendo e preparando coisas malucas, percebeu que ali estava o seu novo hobby: fazer receitas estranhas que aliviassem a sua tensão.
Ao perceber isso, ficou em paz, perdeu a gula e ansiedade, decidiu deixar a idéia de hobbys, e voltar a clinicar.
Acabada a última seção de terapia com seu paciente Jorge, Silvia tem um 'insite', lembra de uma seção que teve com seu paciente há aproximadamente umas duas semanas, quando conheceu Jorge, na qual ele se dizia ter muito medo de ficar dependente de terapia, ou seja, quando ele - assim dizia: 'entra, tem medo de sair'.
Então, Silvia faz uma associação com o cinema, que Jorge tanto gosta, será que gosta? Ou seria uma das coisas a qual Jorge tem receio de deixar. Seria um prazer o cinema para ele ou uma das coisas que não quer deixar de se aprofundar, se envolver.
Cada detalhe de cada filme que Jorge descrevia, tinha um ar de aprofundamento, mesmo nos pequenos detalhes, filmes de humor, no qual possivelmente até o autor, não tinha a intenção.
Silvia fica a pensar: o que será que Jorge busca, ou melhor, persegue em seus olhares? Porque sempre paira no ar esta "morte", este foice que o espreita em qualquer canto,em qualquer sombra, em qualquer lugar? Jorge se esconde nas histórias alheias, na vida dos outros, em enredos que não são seus, mas são seus, porque as imagens percebidas são sempre as mesmas: Jorge e seus temores.
Dependencia, vinculo, ligação: "tenho certeza que em algum tempo se rompe, se fragiliza, morre! A decepção, a dor mata: a raiva assassina." Silvia se dá conta então que Jorge alcançou o seu exito: fe-la sentir o que ele sentia, na mesma intensidade. Por isto pode voltar!
Pôde voltar; mas, queria voltar? Sentada em sua poltrona reclinável, fitando a samambaia que pairava sobre o divã, passou os olhos pelas lombadas dos livros já gastos enquanto segurava sua caneca onde alternam-se, invariavelmente, chá e café (naquele momento, o aroma da sala indicava chá de jasmin), Silvia sentiu-se uma estrangeira em sua própria terra. Olhou mais uma vez para seus livros e deteve-se em um velho companheiro: Contribuições à Psicanálise, de Melanie Klein. Contribuições... Que contribuições dera ela, Silvia, à psicanálise (além de pagar a anuidade da Sociedade)? Que contribuições dera ela, Silvia, a sua própria vida? Passou os olhos por sua sala novamente e fixou-se em um vaso repleto de flores que escolhera especialmente para o consultório: lindos exemplares de uma espécie multicolorida, com pétalas abundantes, mas, desprovida de qualquer cheiro. Como pode uma flor tão agradável aos olhos ser tão indiferente ao nariz?
Sorveu um gole de seu chá e foi tomada por lembranças de sua juventude, dos tempos de faculdade. Os amigos de então, dos quais ainda mantém contato com uns quatro ou cinco; os corredores da faculdade, as discussões acaloradas nos pátios, as calças boca de sino, as batas indianas, os colares, os longos cabelos lisos à moda Joni Mitchell, as festas do diretório acadêmico - tropicália e haxixe. E, mesmo tentando evitar, lembrou-se de Henrique, seu namorado de então; o amor de sua vida - daquela vida que não volta mais (na verdade, não sabia, agora, se amou Henrique ou se amava aquela época; como em uma promoção dessas lojas de departamento, onde só se pode comprar o pacote, nada de separar os itens.)
Henrique não estudava psicologia; estava no quarto ano de Ciências Sociais, era de esquerda, agia de esquerda, vestia-se de esquerda; agitava reuniões políticas no centro acadêmico, organizava grupos de discussão sobre o Cinema Novo, tocava violão, não ligava para roupas - tudo aos moldes da época, tudo que uma menina daquela idade podia querer. Viveram momentos maravilhosos juntos - ela, ao menos, tinha essa opinião -, mas, isso é óbvio: era tudo tão irreal, sem expectativas concretas, sem compromisso. Sem compromisso até demais na opinião de Silvia; mesmo naquela época, mesmo dizendo-se liberal, não queria dividir seu "homem" com outras meninas de calça boca de sino e bata indiana. Sentia-se culpada por exigir a posse de Henrique, justamente a posse, palavra tão criticada por todos à sua volta. Pronto: espantou a lembrança daquele Henrique - ateve-se à realidade.
De quando em quando, a vida pede licença e os momentos mais preciosos, gentilmente, abrem passagem: a última vez que tivera notícia de Henrique foi em uma banca de jornal - capa da revista Exame; era agora alto executivo da indústria tabageira.
Se Henrique tinha mudado tanto, por que ela não podia fazer o mesmo? Sílvia levantou-se determinada e, sem olhar, em um gesto que já era cotidiano há mais de nove anos, esticou a mão direita e rapidamente alcançou as chaves do consultório que meteu no bolso do paletó antes de fechar a porta.
A luz amena de uma manhã convidativa pôs-lhe a admirar pela primeira vez, o contorno de um prédio distante contra o céu. Há nove anos trabalhando no mesmo lugar e ela nunca tinha reparado naquele prédio, será novo, se perguntou por um instante antes de concluír que novo já não era, a perceber-se pelas marcas de chuva sob os beirais. Tampouco lembrava-se de ter sido incomodada pelos inevitáveis ruídos e distúrbios que tal construção haveria de causar. Olhou para baixo e seguiu sem objetivo claro, um caminho que há muito não fazía. Só foi dar-se conta de onde estava quando sentiu o cheiro cítrico dos limoeiros. Olhou para cima, e encontrou o que procurava sem saber. Alí daquela praça, por detrás dos limoeiros, ainda acima da mangueira que escalava quando seus tempos de menina não a diferenciavam de um menino, podia se ver o pico do observatório, com sua forma característica, um lugar não apenas de memórias mas de descobertas.
De um modo calmo e acertivo, cada uma de suas botas adianta-se em direção à velha estrada que sobe a montanha. Este dia será perdido; pensou. Ou ganho; corrigiu-se rapidamente com uma intuição que resultou-lhe em um sorriso que não conseguiu segurar; Pareço uma criança. O mundo inteiro à minha frente, tenho todo o tempo do mundo; e sentindo-se disposta a ir até Saturno em busca de descobrir-se novamente, Sílvia começou a percorrer os estimados 40 minutos de trilhas e alamedas que a levariam ao topo.
(um belo desfecho!)
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