Seus sonhos estavam espalhados pelo chão. Planos... Sem forma... Misturados com as talhas de madeira no chão. Não havia nada no futuro. Morrer seria exatamente igual a viver. Ou melhor talvez? Ela não sabia... Mas não tinha vontade de morrer realmente.. Mas a sensação da cabeça e do coração sem sofrimentos, sem parar de queimar, iria desaparecer quando? Não tinha vontade de fazer absolutamente nada...
Ela queria voltar sentir o mundo de acordo com as palavras de William Goyen, em La maison d’ haleine ( a casa da respiração, talvez fosse a tradução):
“Pensar que possamos vir ao mundo num lugar que a princípio não saberíamos sequer nomear, que vemos pela primeira vez; e que, nesse lugar anônimo, desconhecido, possamos crescer, circular até conhecermos o seu nome, pronunciá-lo com amor, que o chamemos de lar, onde lançamos nossas raízes, onde abrigamos nossos amores; de forma que, cada vez que falamos dele, o fazemos como amantes, em cantos nostálgicos, em poemas transbordantes de desejo”.
Parte II - A saída ou La maison de L'amour
E os aparelhos apitando, o pai nervoso olhava pela janela, a tia, a vó, até o priminho que não sabia direito o que fazia.
Silêncio.
Foi a enfermeira gorda e desajeitada que ouviu o primeiro respiro sair bela boca da menina.
Sim, era uma menina, magricela, careca, pequena.
Os médicos olharam assustados, nunca tinham visto nada assim.
- Olha dona, a sua criança tem que ser estudada, é o primeiro caso desses que vejo em toda minha carreira.
A mãe, confusa e dopada
- Mas doutor, ela é perfeita! Tem todos os dedinhos dos pés e das mãos, olhinhos, boca …
- Mas dona, o problema não é o que tem fora, o problema é o que tem dentro! O coração dela é o maior do mundo, tomou conta de todos os outros órgãos, da barriga, das costas, até dos pezinhos. Aos poucos o corpinho não vai aguentar e ela vai transbordar amor por todos os lados, orelhas, bocas, por tudo.
- Doutor…
Deus me ouviu.
E respirou.
*(escrito por FP)
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