sexta-feira, 2 de julho de 2010

À Espera

Era um daqueles dias em que tudo podia dar certo. O encontro estava marcado para às 22:00. A moça - que não passava brilho nos lábios há dois meses - nesta noite passou. O casal iria pegá-la às 21:30, e então iriam ao bar, onde o encontro aconteceria. Lá estaria o moço, tímido/inteligente, amigo do casal, esperando por eles. Estava tudo planejado. Ele era um antigo amigo de faculdade da mulher acompanhada. Ela, de brilho nos lábios, era uma amiga recente do casal, que de quando em vez, saia com eles à procura de diversão.

Lábios secos, coração acelerado, vontade de fugir e de ficar. Era um encontro no escuro. O que ela iria encontrar, pensava. Será que vou dar conta, vou saber me comunicar, vou gostar dele? E ele de mim? Já faz tanto tempo, que nem sei mais. O que vamos conversar? Por que aceitei?

Chegamos! Entro no bar exitante, mas procuro manter ar de segurança, de confiança, de "sou mais eu e você é o sortudo que está tendo o privilegio de me conhecer"! Será que ele está percebendo o meu estado? Não, não... .

E eis a apresentação: Rodrigo (é o nome do moço), esta é a amiga de quem lhe falei, Sandra. Vocês tem muito em comum. (Ela podia ter deixado este comentário de lado. Parece que estou desesperada, jogada as traças! Arre!!!).

Rodrigo dá um sorriso, vamos em direção a mesa e nos sentamos para jantar. Que sorte, o garçom logo vem com o cardápio, adiando assim o "confronto fatal", ou seria melhor dizer fatidico? Escolhemos os pratos, os homens escolhem um vinho, e então começamos o ritual. Rodrigo pega a faquinha do prato de pão, escolhe uma das muitas variedades de paezinhos oferecidos no couvert para o nosso deleite,se serve de pate de queijo brie com nozes e damasco, passa em seu pão, e aí então, ops... . Rodrigo morde o pão e o PRÓPRIO DEDO contendo um grito de dor, mas a careta não me escapa. Será que ele também está nervoso, com medo do nosso encontro?


Logo em seguida, eu mordo a própria língua, ao mastigar o meu pedaço de pão, deixo cair a colher (Rodrigo abaixa-se e a recolhe), e nossos olhares se cruzam. O dele é suave, seus olhos grandes, redondos, negros e brilhantes, parecem sugerir que todas as cancelas demarcando os nossos territórios vão desaparecendo uma depois da outra. Deixando-nos próximos, perigosamente próximos. Ele volta à posição de sentido, sentado, uma gota do vinho do seu cálice despenca sobre a mesa, a pequena mancha vermelha, se espalha no linho da toalha até se tornar rosa, as cores fazendo o mesmo movimento do seu rosto. Ele está à espera.

A espera.... . A espera do que? Afinal, quem é o homem desta situação? Quem deve tomar a inicitaiva? Começo a pensar que tipo de homem é este a minha frente, que quando deveria se encher de coragem, ser arrojado e tentar me conquistar, partir para a investida, simplesmente está ali como uma criança que está ansiosa por um reforço, qualquer reforço que indique que pode se aproximar sem medo.

Ao mesmo tempo questiono quem inventou estas convenções? Nós mulheres, a sociedade feminina, ou esta deveria ser uma regra universal em qualquer cultura que diferenciaria quem é ou não uma mulher de valor? Por que não podemos ser mais simples, agirmos de acordo com nossos desejos, sermos naturais, sem que eles homens, de um modo geral, se asssutem, ou sem que sejamos já avaliadas e pre´-taxadas por conta de atitudes isoladas, onde estas partes nos transformam em um todo que nem nós mesmas nos reconhecemos naquelas imagens! Nossa, quanta energia gasta a toa, quanta energia consumida. O jantar nem começou e já me sinto exausta, sem animo.

A conversa rola, mas parece que não ouvi nada do que foi dito ali. Onde estava? Onde estou agora? Perdida em meus devaneios? E a pergunta se repete: o que você acha? E agora, o que faço? Se perguntar sobre o que conversavam, pode parecer um tremendo desinteresse e decepção em relação a Rodrigo, o que não corresponde nem um pouco a verdade. Mas se der qualquer resposta sobre o que não sei, ai vou parecer uma tonta, futil, e ele vai se desinteressar de mim, se é que está interessado! Socorro!!!
Resolvo arriscar, e digo: não tenho uma opinião definida. Será que colou?

Rodrigo sorri, um sorriso iluminado, franco, quente e acolhedor. Que vontade de sentir como é estar no meio de seus braços, o calor de seus lábios envolvendo os meus. Me assusto com meus pensamentos. Mal o conheço! O que está acontecendo comigo?



Os pratos principais foram devorados entre “ ahans “ e risadas da minha parte, mergulhada demais em pensamentos para prestar atenção naquela conversa. Nem no prato. Comi o que mesmo? Como poderia estar com o coração palpitando desse jeito? Pedimos a sobremesa logo em seguida. Rodrigo e eu pedimos taças de merengue. Dei a primeira colherada, no morango mais vermelho e suculento, imaginando os lábios de Rodrigo. Deixei escapar um sorriso e olhei para ele de canto do olho, para ver se lia pensamentos. Vi que seus olhos me acompanhavam, atentamente. Havia um sorriso no canto dos seus lábios. Levou sua colher a boca, pesada pelo enorme morango que havia nela. Comeu-o em duas mordidas. Senti que corei. Para uma moça que não passava brilho nos lábios há dois meses, o encontro às escuras poderia terminar ali mesmo.

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