quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Triângulo Audacioso

Os tempos não andavam bons. Nem lá, nem cá. A moça, morava em Florença e sentia-se só, sem expectativas, nem projetos. O rapaz, usava o mar como forma de refúgio, porque a rotina em Florianópolis estava muito quadrada e sem sal. Apenas o mar pra salgar seus desejos.
Foi então que Julia se viu apegada demais a seu computador, e mais, se deu conta de que só restaram amigos virtuais naquela cidade tão linda de fora, mas tão fria por dentro. Marcelo começou a reparar na presença de Julia. Seu status andava sempre online e decidiu puxar papo com a moça que mesmo longe, andava sempre tão acessível.

Marcelo:

Oi ju, qto tempo. Como vc ta?

(“eu sei que não deveria falar com ela...”)

* Jú *:

oi...

(palpitções no coração e o pensamento “ ele está realmente falando comigo.. depois de tudo que aconteceu”)

td ótimo.. e vc, como andam as coisas?

(“ótimo? Que mentira descarada”)

Marcelo:

(“ela respondeu..ótimo..é, eu imaginava...” palpitações no coração dele também “o que vou dizer agora? Desde que ela foi embora, as coisas andaram para trás. O mar não é mais tão quente. As ondas não são mais redondas. A água não é mais clara. É turva. A vida marinha parece que sumiu diante dos meus olhos. Devo dizer isso a ela? Pra que, se ela não está aqui. Como se isso tudo importasse a ela... Agora sei que não importa mais. Foi o que ela me disse naquele dia... o dia que guardo com rancor e carinho.”)

tudo bem..

(“mentira”)

Ambos estavam com medo. Muitas vezes o medo serve como freio para evitar situações muito arriscadas. Mas o medo também pode servir como alavanca para nos jogar adiante, evitando os sofrimentos que vivemos no passado, experimentando novidades.
Florença e Florianópolis, enquanto não se resolviam, usavam o mar e o frio como fatores de distração. Agora com o éter na jogada, tudo ficava mais fácil. Ninguém precisava olhar no olho de ninguém.
Mas o medo ficava só olhando, como se fosse outro interlocutor colocado no modo invisível, e com ele nesse modo, era impossível uma ligação com vídeo.

Quando se pensa em um triângulo, associa-se a existência de três pessoas numa relação. Mas não para Marcelo, lembrava Julia. No dia em que ela perguntou qual seria o formato da relação que tinham, ele respondeu: "Nossa relação é como um triângulo. As linhas corriam livremente, quando se cruzaram. Pense nos 3 pontos, que demarcam a forma do triângulo. Antes das linhas se cruzarem, eles não existiam. As linhas podem continuar a correr. Mas nunca poderão formar este exato triângulo novamente. Uma forma perfeita marcada pelo ponto de encontro nas linhas livres." Julia a princípio não entendeu. Marcelo pegou um papel e uma caneta. Logo tudo fazia sentido, e ela acho aquela associação maravilhosa... Mas hoje pensa na hipótese de que na sua linha de vida e na de Marcelo, cruzou a distância. "Ela que marcou a sua relação triangular em nós", pensa a moça.

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